Marcela Pankararu debate preservação ambiental e justiça social em palestra na Câmara de Itapira
O encontro reuniu reflexões sobre preservação ambiental, justiça social e participação política.
3 jul 2026, 08:59 Tempo de leitura: 4 minutos, 0 segundos
Vanderlei Tenório
A Câmara Municipal de Itapira recebeu, por meio da Escola do Legislativo, a palestra “As Águas de Itapira: Preservar as Nossas Raízes para Garantir o Nosso Futuro”, conduzida pela ativista indígena Marcela Pankararu.
Natural do sertão de Pernambuco, pedagoga formada pela PUC-SP e estudante de Ciências Sociais na Unicamp, a palestrante propôs uma reflexão que ultrapassou os limites tradicionais da discussão ambiental e colocou em evidência a relação entre natureza, democracia e direitos humanos.
Uma democracia que inclua a natureza
Ao longo do encontro, Marcela defendeu a ampliação do próprio conceito de democracia. Inspirada em lideranças indígenas como Ailton Krenak e Davi Kopenawa, argumentou que rios, florestas e animais também devem ser considerados sujeitos de direitos, ainda que não possuam representação política formal.
Para ela, cabe à sociedade assumir a responsabilidade de defender esses elementos da natureza diante das decisões tomadas nos espaços institucionais.
A ativista destacou que a preservação ambiental não pode ser vista apenas como uma pauta ecológica, mas como uma questão de sobrevivência coletiva. Segundo ela, a humanidade faz parte de um organismo maior e interdependente, razão pela qual a destruição dos recursos naturais afeta diretamente a qualidade de vida das populações.
Meio ambiente e condições de trabalho
Um dos momentos que mais chamou a atenção do público foi a associação entre as condições de trabalho e a preservação ambiental.
Marcela argumentou que jornadas exaustivas, como a escala 6×1, reduzem a possibilidade de convivência das pessoas com os espaços naturais e limitam o tempo destinado ao lazer, ao descanso e à construção de vínculos com o território.
Na sua avaliação, garantir mais tempo livre à população também significa fortalecer a consciência ambiental e a capacidade de participação cidadã, aproximando as pessoas dos espaços que precisam ser preservados.
Racismo ambiental e desigualdade no acesso à água
A discussão avançou para o tema do racismo ambiental, conceito utilizado para descrever a distribuição desigual dos impactos ambientais sobre populações vulneráveis.
A palestrante compartilhou experiências pessoais para ilustrar essa realidade. Recordou a infância na periferia de São Paulo e relatou que, em sua aldeia no sertão pernambucano, mesmo estando próxima ao Rio São Francisco, a comunidade ainda depende de caminhões-pipa para obter água potável.
Para Marcela, situações como essa demonstram que o acesso à água de qualidade, ao saneamento básico e a um ambiente equilibrado permanece distante de grande parte da população brasileira.
Ela observou que os efeitos das mudanças climáticas atingem de forma mais intensa moradores das periferias, povos indígenas e outras comunidades historicamente marginalizadas.
Os desafios dos povos indígenas nos espaços urbanos
Durante o debate com os participantes, a ativista também abordou as dificuldades enfrentadas pelos povos originários nos espaços urbanos. Relatou experiências de preconceito e criticou mecanismos institucionais que, segundo ela, ainda desconsideram especificidades das comunidades indígenas, como sistemas próprios de educação e formas tradicionais de registro civil.
Marcela defendeu ainda a ampliação da presença indígena nas universidades e nos espaços de decisão política.
Para ela, a ocupação desses ambientes representa uma nova etapa da luta dos povos originários, agora realizada por meio da produção de conhecimento, da formulação de políticas públicas e da atuação jurídica e legislativa.
Memória, participação e ação coletiva
A palestra também reservou espaço para homenagens a pessoas que dedicaram suas vidas à defesa do meio ambiente. Entre os nomes lembrados esteve o delegado Firmino, reconhecido em Itapira pela atuação no combate a crimes ambientais.
Ao encerrar sua participação, Marcela dirigiu uma mensagem aos jovens presentes, especialmente aos integrantes da Escola do Legislativo.
Ela ressaltou a importância de transformar a preocupação ambiental em ações concretas, defendendo investimentos em saneamento básico, arborização urbana e políticas públicas voltadas às regiões mais vulneráveis da cidade.
O encontro reuniu reflexões sobre preservação ambiental, justiça social e participação política, reforçando a ideia de que os desafios ecológicos contemporâneos exigem respostas que considerem não apenas a proteção da natureza, mas também a garantia de direitos para as populações mais afetadas pelas desigualdades socioambientais.
Vanderlei Tenório é jornalista e professor de atualidades, com atuação no Brasil e em Portugal. Militante do Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL), coordena o Emancipa Itapira e foi presidente do PSOL Itapira.