Vereadora Mariana Conti debate Palestina e solidariedade internacional em encontro em Itapira
Experiência na Global Sumud Flotilla embasa reflexões sobre direitos humanos e a situação do povo palestino
14 abr 2026, 08:12 Tempo de leitura: 5 minutos, 29 segundos
No último sábado (11/04), a vereadora Mariana Conti (PSOL Campinas), atualmente pré-candidata a deputada estadual, participou de um encontro em Itapira como a primeira convidada do projeto Ideias em Movimento. A atividade foi realizada no Pato Boteco e reuniu moradores da cidade para uma roda de conversa sobre temas internacionais e seus desdobramentos políticos.
O encontro teve como ponto de partida a participação de Conti na Global Sumud Flotilla, missão humanitária internacional que buscou romper o bloqueio à Faixa de Gaza e levar ajuda à população palestina. A partir dessa experiência, a vereadora abordou a situação vivida no território, os impactos do conflito e a importância da solidariedade internacional.
Logo no início de sua fala, Conti agradeceu o espaço e destacou o caráter acolhedor do evento. “É um tema muito caro para mim e também urgente para a humanidade”, afirmou. Ela também comentou o lançamento da nova edição da flotilha, ocorrido no mesmo dia, em Barcelona. Segundo a parlamentar, a missão atual reúne cerca de mil pessoas e 100 embarcações, número superior ao da edição anterior, da qual participou. “Muitos dos que estão embarcando agora se tornaram nossos amigos, e acompanhar esse movimento crescer emociona”, disse.
Ao contextualizar a iniciativa, Conti explicou que a flotilha é formada por ativistas de diversos países, com o objetivo de romper o cerco imposto a Gaza e entregar ajuda humanitária, incluindo alimentos, medicamentos e próteses. “No nosso barco, levávamos também brinquedos”, relatou. Além da ajuda direta, a missão busca chamar a atenção da comunidade internacional para a situação no território palestino.
Durante a exposição, a vereadora também apresentou um panorama histórico do conflito, mencionando a criação do Estado de Israel em 1948 e o episódio conhecido como Nakba, quando centenas de milhares de palestinos foram expulsos de suas terras. Ela citou estudos do historiador Ilan Pappé, que analisam esse processo a partir de documentos oficiais.
Conti destacou ainda que, em sua avaliação, a Palestina se tornou um “laboratório” para tecnologias militares e políticas de controle social que posteriormente são exportadas para outros países. Nesse sentido, relacionou a situação internacional com debates contemporâneos sobre democracia, autoritarismo e direitos humanos.
Ao relatar a experiência na flotilha, a parlamentar descreveu a travessia pelo mar Mediterrâneo, que incluiu passagens por Tunísia, Itália e Grécia. Segundo ela, o grupo enfrentou condições adversas, como tempestades, ameaças e ataques de drones ao longo do percurso.
A embarcação em que estava foi interceptada em águas internacionais por forças israelenses, e os integrantes da missão foram detidos e levados a uma prisão no deserto de Neguev, onde permaneceram por alguns dias. De acordo com Conti, o período foi marcado por forte desgaste emocional e pela perda de autonomia, já que os ativistas ficaram sob custódia, sem controle sobre a própria rotina e submetidos a um ambiente de incerteza.
Ela também destacou que um dos principais desafios foi manter a postura de não reagir diante de provocações e situações de tensão. Como a missão tinha caráter pacífico, os participantes haviam passado por treinamentos prévios para evitar qualquer tipo de confronto, mesmo em condições adversas. Ainda assim, em sua análise, a preparação coletiva e o compromisso político do grupo foram fundamentais para atravessar o período.
Apesar da interrupção da viagem, Conti avaliou a missão como significativa. A seu ver, a ação contribuiu para ampliar a visibilidade internacional do tema e impulsionou mobilizações em diferentes países. “Naquela semana, a Palestina se tornou um dos assuntos mais comentados do mundo”, afirmou. Também destacou impactos indiretos, como a possibilidade de pescadores palestinos retomarem temporariamente suas atividades durante a mobilização da marinha israelense.
A vereadora defendeu que, diante da falta de respostas efetivas por parte de governos, a mobilização da sociedade civil é fundamental. “Existe uma dimensão ética que nos convoca a não nos calarmos”, declarou, ao comentar as motivações que a levaram a participar da missão.
Além da análise internacional, a vereadora estabeleceu conexões com o cenário político brasileiro. Em sua fala, defendeu que práticas autoritárias e discriminatórias observadas em outros contextos também devem ser enfrentadas no país. Conti mencionou a necessidade de impedir o avanço de projetos políticos que, no seu entendimento, reproduzem lógicas de exclusão e violência, fazendo referência ao bolsonarismo como parte desse debate. Para a parlamentar, a defesa da democracia e dos direitos humanos passa tanto pela solidariedade internacional quanto pela atuação no contexto nacional.
Ao final do encontro, Conti agradeceu a presença do público e destacou a importância da solidariedade e do engajamento coletivo. Na avaliação da vereadora, diferentes formas de atuação — tanto em ações internacionais quanto no debate político local — fazem parte de um mesmo esforço em defesa dos direitos humanos e da democracia.
Mariana Conti
Com formação em Ciências Sociais, Mariana Conti é doutoranda em Ciência Política pela Unicamp, onde também atua como funcionária. Iniciou sua trajetória no movimento estudantil, com passagem pelo Diretório Central dos Estudantes. Militante de pautas como educação pública, direitos das mulheres, diversidade sexual e direitos humanos, construiu sua atuação política no campo da esquerda.
Eleita vereadora em Campinas em 2016, foi, naquele momento, a mulher mais votada da história da cidade. Em 2020, foi reeleita com votação ainda maior, tornando-se a mais votada do pleito. Em 2021, tornou-se a primeira mulher a presidir a sessão de posse do Legislativo e do Executivo municipal.
Ideias em Movimento
O Ideias em Movimento, que recebeu Conti, é uma iniciativa realizada em parceria entre o mandato do vereador Leandro Sartori e o Pato Boteco. A proposta é promover encontros a cada 40 dias, sempre com um convidado, para discutir temas contemporâneos em formato de roda de conversa. O projeto busca estimular o diálogo, a troca de experiências e a participação do público em debates sobre sociedade, comportamento e política.
Vanderlei Tenório é jornalista e professor de atualidades, com atuação no Brasil e em Portugal. Militante do Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL), coordena o Emancipa Itapira e foi presidente do PSOL Itapira.