O que trouxemos na bagagem de Porto Alegre?

Porto Alegre e a construção de uma frente antifascista internacional

6 abr 2026, 08:40 Tempo de leitura: 5 minutos, 26 segundos
O que trouxemos na bagagem de Porto Alegre?

Entre os dias 26 e 29 de março, Porto Alegre sediou a 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos. O evento reuniu delegações de mais de 40 países, 4 mil inscritos, 11 mesas temáticas e impressionantes 150 atividades autogestionadas. A marcha de abertura levou cerca de 7 mil pessoas às ruas, retomando a tradição política de Porto Alegre como espaço de articulação internacional da esquerda.

Nosso mandato esteve presente através do companheiro João Vítor Fray de Almeida, que há muito tempo contribui com as lutas culturais e políticas de Itapira. O Fray participou ativamente de diversas mesas de debate, acompanhou lançamentos de publicações políticas e estabeleceu articulações que já estão fortalecendo o trabalho que desenvolvemos aqui na cidade. 

Nesse texto, viemos compartilhar algumas reflexões sobre essa conferência e o que ela significa para nossas lutas locais.

A urgência de uma resposta internacional

No mesmo final de semana em que acontecia a conferência em Porto Alegre, reunia-se nos Estados Unidos a CPAC, articulação internacional neofascista onde Flávio Bolsonaro discursou ao lado de Trump. Essa coincidência de datas não foi casual; evidenciou que estamos diante de uma disputa global entre dois projetos de sociedade radicalmente opostos.

A extrema direita já se organiza internacionalmente há anos, focada em excluir e retirar direitos. A conferência de Porto Alegre foi a resposta necessária: uma articulação que colocou no centro do debate pessoas negras, povos originários, a comunidade LGBTQIA+ e representantes de diferentes territórios e lutas. Porque qualquer projeto político transformador só se sustenta com a união real de todas as forças oprimidas pelo capitalismo.

A conferência também estabeleceu conexão direta com as manifestações do 24 de março na Argentina, com a grande marcha antifascista que reuniu centenas de milhares de pessoas em Londres, e com a terceira jornada unificada “No Kings” que mobilizou milhões nos Estados Unidos contra Trump. Porto Alegre se posicionou como parte dessa rede internacional de resistência!

Quem são as minorias?

Um dos debates mais importantes da conferência foi o questionamento do próprio conceito de “minorias”. Considerando que a maior parte da população brasileira é composta por pessoas pretas e mulheres, não faz sentido que essas pautas continuem sendo tratadas como secundárias ou complementares.

Ficou evidente que não existe luta antifascista real sem que ela seja antirracista, antimachista e de combate frontal à LGBTfobia e ao capacitismo. O fascismo sempre avança primeiro sobre os grupos historicamente oprimidos, e é justamente por isso que qualquer estratégia de enfrentamento precisa colocar essas pautas no centro, não na margem.

O protagonismo do PSOL e do Movimento Esquerda Socialista (MES), corrente à qual nosso mandato se vincula, foi decisivo para garantir essa centralidade. Ao lado de organizações parceiras como Juntos e Emancipa, conseguimos assegurar espaços potentes como a mesa da Maré Negra, composta por diversos parlamentares negros do partido, e o lançamento do manifesto desse movimento com presença de lideranças internacionais.

Articulação que fortalece Itapira

A participação do companheiro João Fray na conferência não foi protocolar. Ele esteve em mesas sobre tarifa zero, direitos das mulheres, acompanhou o lançamento da revista Retomada do MES e estabeleceu contatos com lideranças de várias regiões do Brasil que já estão transformando suas realidades locais.

Essas conexões têm impacto direto no nosso trabalho aqui em Itapira. Quando debatemos tarifa zero na conferência, ouvimos experiências de cidades que já implementaram a política e enfrentaram desafios semelhantes aos nossos. Quando acompanhamos discussões sobre ecossocialismo, conectamos nossa luta local com um movimento global…

A gente não faz política isoladamente. Nosso mandato ganha força quando está conectado a uma rede nacional e internacional de lutas. As articulações construídas em Porto Alegre fortalecem nossa capacidade de atuação aqui em Itapira, ampliam nosso repertório político e nos conectam com experiências concretas de transformação social que já estão dando certo em outros lugares.

Ecossocialismo não é papo para o futuro

Porto Alegre, que em março deveria estar com temperaturas baixas, registrou dias de 38 graus durante a conferência. A crise climática não é uma ameaça distante, é a realidade que afeta nossa vida cotidiana agora. O capitalismo destrói a natureza e acaba com nossas condições de vida, e isso se manifesta desde as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul até as secas que afetam o interior de São Paulo.

Por isso a pauta ecossocialista teve centralidade na conferência. O lançamento do Manifesto Ecossocialista da IV Internacional, com presença do pensador Michael Löwy, reafirmou que a derrota do capitalismo não é apenas uma necessidade política, mas uma urgência civilizatória. E que essa derrota só acontecerá com a união de todas as pessoas que já trabalham diariamente para que esse sistema acabe.

Uma frase que resume a disposição necessária

Durante uma mesa sobre feminismo, Auricélia Arapiun, liderança indígena dos Tapajós, contou como sua comunidade barrou um projeto que ameaçava secar o rio local. Eles ocuparam as instalações da Cargill por um mês até conseguirem a revogação do decreto. E ela resumiu essa luta com uma frase que ficou marcada na conferência:

“A Cargill falou pra gente que eles não estavam pra negociar, mas não tem problema, porque a gente também não estava.”

Se a força da comunidade da Auricélia unida conseguiu impor uma derrota a uma gigante multinacional, é com essa mesma disposição que seguimos na luta contra o fascismo e o capitalismo.

Porto Alegre na vanguarda, Itapira conectada

A conferência deixou claro que a luta antifascista precisa ser articulada internacionalmente, mas também precisa se materializar em cada território. As conexões feitas em Porto Alegre já estão chegando em Itapira, fortalecendo nosso trabalho diário e ampliando nossa capacidade de transformar a realidade local.

Porto Alegre mais uma vez se posicionou na vanguarda. E nós seguimos firmes construindo esse mesmo espírito aqui: lutar e vencer a extrema direita, com organização popular, articulação política e disposição para não negociar quando estão em jogo os direitos fundamentais do povo.

Seguimos firmes na luta!