Fascismo como estrutura: lançamento de Vladimir Safatle em Campinas
Estivemos no lançamento de "A ameaça interna" de Vladimir Safatle em Campinas. O fascismo não voltou: ele nunca foi embora.
21 maio 2026, 08:15 Tempo de leitura: 3 minutos, 24 segundos
Foto por Davi Farinelli
No dia 6 de maio, estive presente no lançamento do livro “A ameaça interna: Psicanálise dos novos fascismos globais”, de Vladimir Safatle, realizado na Casa Movimento em Campinas. O evento debateu uma das questões mais urgentes do nosso tempo: o que é, afinal, o fascismo que estamos enfrentando hoje?
Quem é Safatle e qual a tese do livro
Vladimir Safatle é professor titular de Filosofia da USP e uma das vozes mais importantes do pensamento crítico brasileiro contemporâneo. Neste novo livro, publicado pela Ubu Editora, ele desenvolve uma tese provocadora e necessária.
O fascismo não é uma ameaça externa às democracias liberais, mas uma virtualidade interna delas. Não se trata de um desvio irracional nem de uma repetição dos anos 1930, mas de algo estrutural às nossas formas de vida.
O que os marxistas negros já sabiam
Durante o debate, Safatle trouxe uma reflexão que precisa ser levada a sério por quem atua politicamente à esquerda. Ele citou os marxistas negros norte-americanos que, nas décadas de 1960 e 1970, olhavam para a sociedade dos Estados Unidos e nomeavam aquilo como fascismo:
“Se os marxistas negros norte-americanos, George Padmore, Walter Rodney, Fred Hampton, Angela Davis, olhavam pra sociedade da qual eles faziam parte e falavam ‘fascismo’, não era por retórica. É porque, da perspectiva daquelas populações, toda a dinâmica de segregação que era vista de maneira industrial no fascismo histórico dos anos 30 estava lá, continuava lá. Então, qual que é a função de utilizar esse termo desta maneira? É um alerta de alarme, dizer, primeira coisa: as estruturas de violência que nós julgamos insuportáveis são normais nas nossas sociedades.”
Essa fala toca em algo fundamental. Quando Angela Davis, Fred Hampton ou George Padmore chamavam de fascismo a realidade que enfrentavam, não estavam exagerando. Estavam nomeando com precisão a experiência concreta de viver sob um Estado que te trata como coisa, não como pessoa.
Um Estado que te vigia, te encarcera, te extermina de forma sistemática e industrial. E que faz isso enquanto se declara democrático.
O fascismo atual
O que Safatle está dizendo tem implicações diretas para nossa atuação política. Essa lógica fascista nunca esteve confinada aos anos 1930 na Europa. Ela sempre operou nas periferias, nas colônias, nos territórios onde populações negras, indígenas e pobres são historicamente tratadas como descartáveis.
Essa dinâmica não é abstrata. Ela se materializa nas chacinas que acontecem em favelas. Ela se materializa quando o Estado investe em repressão policial mas não investe em saúde pública. Ela se materializa quando vidas periféricas são tratadas como estatísticas aceitáveis.
A função de nomear isso como fascismo, como explica Safatle, é soar o alarme. É dizer que as estruturas de violência que consideramos insuportáveis quando aplicadas em larga escala já são normais em nossas sociedades, mas aplicadas de forma seletiva a quem sempre foi considerado “menos humano”.
E é exigir que a esquerda não se contente em ser apenas a gestora mais humana dessas estruturas.
Diagnóstico como ferramenta política
O livro de Safatle não oferece respostas prontas ou fórmulas de ação imediata, e ele reconhece isso. Mas oferece algo igualmente necessário: um diagnóstico preciso do que estamos enfrentando.
Estar presente em debates como esse faz parte do trabalho político que acreditamos ser necessário. Não basta atuar apenas na disputa institucional imediata. É preciso alimentar a reflexão crítica, conectar lutas locais com debates mais amplos e construir repertório teórico que nos ajude a compreender a realidade para transformá-la.
O fascismo nunca foi embora
O fascismo voltou? Safatle responde: ele nunca foi embora. Apenas estava restrito a determinadas populações. Agora se generaliza.
E nossa tarefa é enfrentá-lo não com indignação moral vazia, mas com organização política concreta, construção de alternativas reais e clareza sobre o que estamos combatendo.